O Diabo veste "Prada"; "Deus" também - não sei se já repararam nos sapatos do Papa?!
quarta-feira, 13 de maio de 2009
segunda-feira, 11 de maio de 2009
A "Faixa de Gaza"
A "Faixa de Gaza" é o nome dado pelos próprios moradores à "terra-de-ninguém" que separa as zonas de alojamento das "comunidades" cigana e africana no Bairro da Belavista em Setúbal.
Não deixa de ser curioso que a auto-representação das populações seja tão ironicamente sábia e reveladora de uma inteligência que muitos dos seus paternalistas "curadores" lhes não costumam conceder, tratando-as assim como uns menores mentais que têm de ser "perdoados" porque não sabem o que fazem!
Não é por acaso que antigos bairros "problemáticos" de Lisboa eram auto-referenciados como "Vietnam" e "Cambodja"; aqui ninguém é parvo e a "inocência" do "bom selvagem" está muito longe destas, nada cândidas, paragens.
Também nestes casos é legítimo aplicar a velha invectiva de Almada Negreiros acerca da "salvação do mundo" - "agora só falta salvá-lo"!
Todos os diagnósticos estão há muito feitos - a continuada criação de "ghettos", como denuncia até a própria auto-referenciação, "Faixa de Gaza", só pode e é certo e sabido, dar origem a fenómenos de explosão social e delinquência, demais a mais em conjunturas de "crise" económica como a que estamos a atravessar, mas não podemos ser "simplistas" ao ponto de lhes atribuirmos "costas tão largas" que expliquem tudo.
E é esse o principal "erro" de análise de uma certa esquerda presa ou a um "primarismo" redutor e "conveniente" como o do PCP ou à "escravatura" da "grelha analítica" e ao "argumentário" do "politicamente correcto" do Bloco, para quem os desacatos ou são como o fascismo, no dizer irónico de Eduardo Lourenço, "nunca existiram" ou são todos provocados por, como Lula da Silva disse da crise financeira mundial, "rapazes loiros e de olhos azuis"; do PS, oficialmente não conheço posição alguma, o Vitalino ainda não falou a este propósito, deixou tudo para o Governo, (também agora quem foi agredido e quem vê os seus bens a arder, não será certamente "Vital" para o partido perder tempo com a situação).
As posições tradicionalmente assumidas pela esquerda têm o inconveniente de também serem mistificadoras da realidade, daquela realidade que o cidadão comum, que paga impostos e está sujeito às intempéries da vida e tanto é vítima do esbulho fiscal do Estado e da ganância do "mercado", como se sente ameaçado pela violência que, sendo mais do que real, lhe atormenta o quotidiano e o torna e ao dos filhos, que não vivendo em condomínios fechados, tendo que utilizar os transportes e frequentar as escolas públicas, reféns de gangs na verdade compostos por tudo menos "meninos do coro", na sua maior parte longe de estarem alojados em condições miseráveis e certamente não passando fome, se não não teriam meios para adquirir armas de fogo e veículos motorizados (nem todos são roubados - esses costumam servir só para os assaltos) que utilizam nas suas exibições públicas de força "tribal" ameaçadora.
Enquanto a esquerda não acordar para os reais problemas dos cidadãos comuns e do seu quotidiano e persistir num discurso também negacionista e encantatório estará a atirar as pessoas em concreto para os braços de demagogos "securitaristas" como Paulo Portas e pior, muito pior, se a situação se complicar "à grande e à francesa"; então é que nos iremos "ver gregos"!
Não deixa de ser curioso que a auto-representação das populações seja tão ironicamente sábia e reveladora de uma inteligência que muitos dos seus paternalistas "curadores" lhes não costumam conceder, tratando-as assim como uns menores mentais que têm de ser "perdoados" porque não sabem o que fazem!
Não é por acaso que antigos bairros "problemáticos" de Lisboa eram auto-referenciados como "Vietnam" e "Cambodja"; aqui ninguém é parvo e a "inocência" do "bom selvagem" está muito longe destas, nada cândidas, paragens.
Também nestes casos é legítimo aplicar a velha invectiva de Almada Negreiros acerca da "salvação do mundo" - "agora só falta salvá-lo"!
Todos os diagnósticos estão há muito feitos - a continuada criação de "ghettos", como denuncia até a própria auto-referenciação, "Faixa de Gaza", só pode e é certo e sabido, dar origem a fenómenos de explosão social e delinquência, demais a mais em conjunturas de "crise" económica como a que estamos a atravessar, mas não podemos ser "simplistas" ao ponto de lhes atribuirmos "costas tão largas" que expliquem tudo.
E é esse o principal "erro" de análise de uma certa esquerda presa ou a um "primarismo" redutor e "conveniente" como o do PCP ou à "escravatura" da "grelha analítica" e ao "argumentário" do "politicamente correcto" do Bloco, para quem os desacatos ou são como o fascismo, no dizer irónico de Eduardo Lourenço, "nunca existiram" ou são todos provocados por, como Lula da Silva disse da crise financeira mundial, "rapazes loiros e de olhos azuis"; do PS, oficialmente não conheço posição alguma, o Vitalino ainda não falou a este propósito, deixou tudo para o Governo, (também agora quem foi agredido e quem vê os seus bens a arder, não será certamente "Vital" para o partido perder tempo com a situação).
As posições tradicionalmente assumidas pela esquerda têm o inconveniente de também serem mistificadoras da realidade, daquela realidade que o cidadão comum, que paga impostos e está sujeito às intempéries da vida e tanto é vítima do esbulho fiscal do Estado e da ganância do "mercado", como se sente ameaçado pela violência que, sendo mais do que real, lhe atormenta o quotidiano e o torna e ao dos filhos, que não vivendo em condomínios fechados, tendo que utilizar os transportes e frequentar as escolas públicas, reféns de gangs na verdade compostos por tudo menos "meninos do coro", na sua maior parte longe de estarem alojados em condições miseráveis e certamente não passando fome, se não não teriam meios para adquirir armas de fogo e veículos motorizados (nem todos são roubados - esses costumam servir só para os assaltos) que utilizam nas suas exibições públicas de força "tribal" ameaçadora.
Enquanto a esquerda não acordar para os reais problemas dos cidadãos comuns e do seu quotidiano e persistir num discurso também negacionista e encantatório estará a atirar as pessoas em concreto para os braços de demagogos "securitaristas" como Paulo Portas e pior, muito pior, se a situação se complicar "à grande e à francesa"; então é que nos iremos "ver gregos"!
sexta-feira, 8 de maio de 2009
O PREC dos "Ricos"

Na sequência dos casos de autêntica burla bancária do BPN e sobretudo e por motivos óbvios, do BPP, assistimos a um inusitado PREC dos "ricos".
E digo dos "ricos" com aspas porque não vejo os muito ricos envolvidos neste PREC; só alguns endinheirados, muitos dos quais devem essa condição, que ora periga, a vidas inteiras de trabalho na emigração e nos pequenos negócios. Está bem que muitos foram ao engodo das mais-valias tipo D. Branca e pode dizer-se agora, à laia de "sopas depois de almoço", que podiam ter sido mais precatados. Mas foi-lhes garantido um "investimento sem risco".
É verdade que não há em absoluto "investimentos sem risco", o que não falta para aí são notas do Biafra.
Mas, com os diabos, um mínimo de boa fé contratual não teria feito mal a ninguém: assim, "em cima do piano estava um copo de veneno e quem bebeu, morreu"!
O que é certo é que as pessoas que se vêem espoliadas dos seus cabedais em consequência das "habilidades" financeiras de Madoffs de trazer por casa, (atenção que o "homem" ameaçou processar quem lhe chamasse isso), provando que a "bolha" dos "tóxicos" é como a gripe suína; tal como o capital, não tem pátria, nem fronteiras e a vigarice também não!
O que é certo é que as pessoas que se vêem espoliadas dos seus cabedais em consequência das "habilidades" financeiras de Madoffs de trazer por casa, (atenção que o "homem" ameaçou processar quem lhe chamasse isso), provando que a "bolha" dos "tóxicos" é como a gripe suína; tal como o capital, não tem pátria, nem fronteiras e a vigarice também não!
E como notícia não é o "cão que morde o homem, mas o homem que morde o cão", os media têm dado mais cobertura a este PREC de ricaços, com as consequentes bravatas, ocupações, etc. (que, mais do que provavelmente, pessoas dessa condição tanto vituperariam se fossem outros a promovê-las, só que agora "fia mais fino": "Olha o meu"!!!), do que à triste despedida de muitas mulheres e homens à saída no último turno da fábrica que encerra (imagem que já se tornou banal).
É verdade, a propósito, ainda não vi nenhuma carrinha do Corpo de Intervenção à porta do BPP, mesmo estando ocupado!?
domingo, 3 de maio de 2009
Parabéns Pete Seeger
sexta-feira, 1 de maio de 2009
A "Casca de Banana"
O incidente desta tarde com Vital Moreira na manifestação do 1º de Maio da CGTP é revelador de quão baixo se pode descer, mesmo após se ter "batido no fundo", no jogo político.
Como "não nascemos ontem", não vamos ao ponto de acreditar que Vital e a direcção de campanha do PS não estariam cientes dos riscos deste aparecer num evento em que a esmagadora maioria dos participantes está nos antípodas das políticas deste governo de que Vital é o candidato, isto apesar de muitos serem até militantes do PS.
Também não é novidade para ninguém o "desvelo" com que o pessoal do PCP, sobretudo os da "velha guarda", trata os "ex".
Eu próprio testemunhei um incidente, também nas vésperas de umas "europeias", em que que principais candidatos do PS eram Torres Couto e Barros Moura e vieram em campanha ao Barreiro.
Torres Couto, o execrado "amarelo", fundador da "divisionista" UGT, foi tratado com enorme complacência e fair-play, enquanto o outro "desgraçado", foi vaiado, insultado e até cuspido (o PCP não costuma perdoar aos seus "traidores"), isto apesar de Barros Moura ser um pessoa muito mais simpática e publicamente afável que o "cardeal inquisidor "* de Coimbra.**
Estamos, pois, perante a tentativa de criação de um "facto político" na acepção "marcelista" (de Rebelo de Sousa, bien entendu) do termo, Vital e o PS/Sócrates procuraram provocar o "efeito Marinha Grande" de Mário Soares em 86; aliás a prova de que Vital trazia a "lição" bem estudada, ou não fosse ele um aspirante a lente coimbrão, foi que o denunciou imediatamente à "agressão" para as televisões que o seguiam, pois não seria difícil "adivinhar" as "cenas dos próximos capítulos".
Vital, que tem formação marxista, esqueceu-se do aforismo de Marx de que "a História se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa" ou então o staff político do PS subestima gravemente a inteligência dos portugueses; pois é tudo diferente: o tempo, o modo e sobretudo o personagem.
Tal como o efémero Dan Quayle (quem se lembra já dele?), o atoleimado vice-presidente de Bush pai, que dizia ser parecido com John Kennedy, a ponto do seu adversário democrata, Lloyd Bentsen, um homem já idoso, lhe ter lembrado num debate televisivo:
"- Eu conheci pessoalmente John Kennedy, eu trabalhei com John Kennedy, John Kennedy foi meu amigo e o senhor, posso garantir-lho, não é, nem por sombras, nenhum Kennedy"!
Por muita "casca de banana" que se lance nesta espécie de "vale tudo" político, expressa pela estratégia de vitimização que Vitalino Canas logo veio assumir invocando o "ódio" ao PS (como se fosse motivado apenas por causas fantasmáticas, iludindo as políticas neoliberais deste governo e a consciência da trapaça política da parte de um imenso número de eleitores que votaram no PS à espera de políticas de esquerda e de verdade e saiu-lhes mais do mesmo e pior; veja-se o Código do Trabalho, por exemplo!). Vitimização que, aliás está a ser a atitude do próprio Sócrates (é o PS/Sócrates como partido calimero) com a "cruz" que é a "provação" do Freeport.
Convenhamos que também Vital Moreira não é, longe disso, nenhum Mário Soares.
* Se dúvidas houver que esta "rapaziada" muda de "ideias" (não são "burros"), mas não muda de estilo, recordemo-nos das violentas diatribes de Vital Moreira contra o PS e a própria democracia como o PS a entendia nessa altura (anos 70) e na actualidade, o tom caceteiro e insultuoso de certos escritos seus no Blog "Causa Nostra", perdão,"Causa Nossa".
** Barros Moura também era de Coimbra, mas não era "cardeal" (andaria aí por "bispo", na minha modesta opinião) e não tinha "pinta" de inquisidor.
sábado, 4 de abril de 2009
Incrível
Acabo de receber pelos Correios, um convite para estar presente amanhã, domingo, dia 5 de Abril, na "Incrível Almadense" no lançamento oficial da candidatura de Paulo Pedroso à presidência da Câmara Municipal de Almada.
O local não podia ter sido melhor escolhido, de facto e para além da veterania e solidez da "Incrível" na melhor tradição associativa, o nome da sociedade adequa-se inteiramente ao evento.
É absolutamente incrível, pese embora as minhas, já antigas, estima pessoal e admiração pelas qualidades intelectuais de Paulo Pedroso, não é isso que está agora em causa, que o PS o candidate à Câmara de Almada e assuma que é para ganhar.
Esta é de "cabo de esquadra"!
Com quem é que estão a "gozar" pá?!
Post Scriptum:
E para a Câmara do Barreiro, quem é que estão a pensar candidatar: o "Morgadinho" ou o "Tóino Anão"?!
A Minha História do 25 de Abril
Faz agora trinta e cinco anos, fui acordado de madrugada numa quinta-feira de chuvisco, pelo meu pai que me dizia excitado:
“- Acorda Tó Zé, estamos tramados filho, é um golpe de Estado e é o Kaúlza!”
Eu ouvindo a rádio tranquilizei-o:
“ – Não é, não Pai, se fosse o Kaúlza a “música” seria outra!”
Obviamente, se fosse um golpe da extrema-direita do regime, na rádio não passariam Zeca Afonso, José Mário Branco ou Sérgio Godinho, e imediatamente rejubilámos, nos abraçámos, beijámos e fomos acordar a minha mãe e o meu irmão.
Os dias que se seguiram foram de indescritível alegria e entusiasmo e eu tive a percepção clara que a História me estava a bater à porta.
Há um provérbio chinês que enuncia, mais ou menos, isto:
“Deus nos livre dos tempos interessantes”!
Eu que não sou muito dado a “chinesices”, entendo-o, reflecte uma mentalidade diferente, uma outra forma de encarar o tempo, uma consciência a-histórica.
A nossa tradição ocidental deu-nos outra herança; inscrita na nossa matriz civilizacional está uma concepção do tempo como instância de realização, como espaço de discursividade com um nexo de causalidade inerente.
A nossa cultura valoriza a historicidade e cada um de nós é capaz de ter a intuição, a exaltante percepção do reconhecimento da História a acontecer, enquanto acontece.
O 25 de Abril de 74 foi um desses raros momentos de “once in a life time”, em que por uma vez na nossa curta vida de indivíduos, sentimos que algo de grandioso estava a acontecer.
Sentimos a “adrenalina” do momento na sua intensa dramaticidade.
A minha geração teve esse raro privilégio, o de ter participado na História “ao vivo”.
O 25 de Abril de 74 foi, sem quaisquer dúvidas e sem megalomanias, pelas suas consequências, um decisivo marco na História de Portugal, da Europa e do Mundo que aconteceu no tempo das nossas vidas e nos tempos que se constituíram como os “melhores das nossas vidas”!
Se bem que hoje e já há umas duas décadas, haja no Ocidente uma forma de pensar débil e falaciosamente “emoliente” que, para caucionar uma acção “soporífera” de negacionismo e artifício pretensamente “apolítico” (como se tal fosse possível), decretou, entre outras coisas, a “morte das ideologias” (das outras claro!), o “Fim da História” e o reinado do “Último Homem”.
Pretextando, a princípio, a crítica do determinismo historicista, que aliás, já tinha sido empreendida muito antes e com superior mestria e escudando-se em pensadores liberais sérios como Popper, logo passou à fase seguinte, a de tentar negar a própria noção de historicidade apontando para o “Fim das Grandes Narrativas” como instância decisiva do alegado “Fim da História”.
“História” cujo último acto teria sido a “Queda do Muro” e o desabar do “socialismo real”; teria agora chegado o tempo da linearidade entediante capitalismo neo-liberal e da “democracia” (pouco) representativa à escala global, com a planetarização dos negócios suportada na Globalização tornada possível pelas novas tecnologias e pelo abatimento de barreiras comerciais, o paraíso do “Free Trade” nesta espécie de “Admirável Mundo Novo” onde nada mais de substancial ocorreria e o “Último Homem” passaria a reinar.
Mas a História não se compadece de oportunismos de circunstância mesmo quando mascarados com as imbecilidades da contrafacção intelectual de conceitos de timbre hegeliano, como o de “Fim da História” ou nietzscheano, como o de “Último Homem”, que à força de ser propalada pelos “media” dominados pelo Sistema do capital triunfante e muito na esteira do aforismo de Goebbels de que “uma mentira muitas vezes repetida, ascende à categoria de verdade”, passou a fazer figura de argumento sério. Mas a História, como era de esperar, continuou tragicamente com o 11 de Setembro de 2001 e tudo o que desde aí decorreu e decorrerá.
Se é verdade que a premissa do “Fim da História" se veio a revelar como um daqueles embustes para “adormecer meninos” do tipo “história da carochinha”, não é menos verdade que pelo menos transitoriamente, como tudo na vida e na própria História, está instalado o reino do “Último Homem” que é um “doente da vontade”; é o “homem” que “quer” muito pouco, quer, legitimamente, que o deixem em “paz”, quer dormir em “paz”, consumir em "paz", imbecilizar-se em ”paz” e em “paz” fazer de conta que é verdade, que a história acabou. Aliás, nem interessa muito o que é isso de ser “verdade” desde que continue a “dar” na televisão e noutros substitutos virtuais do mundo, que entretanto continua a ser terrivelmente real.
Como escreveu Pessoa há mais de setenta anos:
“- Come chocolates pequena, come chocolates”! (“Pipocas” também serve!)
Ora, nem sequer é preciso ser “tremendista” como o autor do “Zaratustra”, para saber que o reino do “Último Homem”, onde ele não é senhor, mas escravo, chegará por efeito desta ou de outra qualquer “crise”, ao fim.
Não houve Império que para sempre tivesse durado e todos caíram, o Persa, o de Alexandre, o Romano, o Português, o Castelhano, o Britânico, o Russo; porque não haveria de tombar o Americano?!.
Por isso, me orgulho da invulgar oportunidade de ter vivido por dentro a História no seu próprio devir, de ter sobrevivido para o contar e para poder negar aos charlatães do “post-modernismo” a última palavra!!!
“- Acorda Tó Zé, estamos tramados filho, é um golpe de Estado e é o Kaúlza!”
Eu ouvindo a rádio tranquilizei-o:
“ – Não é, não Pai, se fosse o Kaúlza a “música” seria outra!”
Obviamente, se fosse um golpe da extrema-direita do regime, na rádio não passariam Zeca Afonso, José Mário Branco ou Sérgio Godinho, e imediatamente rejubilámos, nos abraçámos, beijámos e fomos acordar a minha mãe e o meu irmão.
Os dias que se seguiram foram de indescritível alegria e entusiasmo e eu tive a percepção clara que a História me estava a bater à porta.
Há um provérbio chinês que enuncia, mais ou menos, isto:
“Deus nos livre dos tempos interessantes”!
Eu que não sou muito dado a “chinesices”, entendo-o, reflecte uma mentalidade diferente, uma outra forma de encarar o tempo, uma consciência a-histórica.
A nossa tradição ocidental deu-nos outra herança; inscrita na nossa matriz civilizacional está uma concepção do tempo como instância de realização, como espaço de discursividade com um nexo de causalidade inerente.
A nossa cultura valoriza a historicidade e cada um de nós é capaz de ter a intuição, a exaltante percepção do reconhecimento da História a acontecer, enquanto acontece.
O 25 de Abril de 74 foi um desses raros momentos de “once in a life time”, em que por uma vez na nossa curta vida de indivíduos, sentimos que algo de grandioso estava a acontecer.
Sentimos a “adrenalina” do momento na sua intensa dramaticidade.
A minha geração teve esse raro privilégio, o de ter participado na História “ao vivo”.
O 25 de Abril de 74 foi, sem quaisquer dúvidas e sem megalomanias, pelas suas consequências, um decisivo marco na História de Portugal, da Europa e do Mundo que aconteceu no tempo das nossas vidas e nos tempos que se constituíram como os “melhores das nossas vidas”!
Se bem que hoje e já há umas duas décadas, haja no Ocidente uma forma de pensar débil e falaciosamente “emoliente” que, para caucionar uma acção “soporífera” de negacionismo e artifício pretensamente “apolítico” (como se tal fosse possível), decretou, entre outras coisas, a “morte das ideologias” (das outras claro!), o “Fim da História” e o reinado do “Último Homem”.
Pretextando, a princípio, a crítica do determinismo historicista, que aliás, já tinha sido empreendida muito antes e com superior mestria e escudando-se em pensadores liberais sérios como Popper, logo passou à fase seguinte, a de tentar negar a própria noção de historicidade apontando para o “Fim das Grandes Narrativas” como instância decisiva do alegado “Fim da História”.
“História” cujo último acto teria sido a “Queda do Muro” e o desabar do “socialismo real”; teria agora chegado o tempo da linearidade entediante capitalismo neo-liberal e da “democracia” (pouco) representativa à escala global, com a planetarização dos negócios suportada na Globalização tornada possível pelas novas tecnologias e pelo abatimento de barreiras comerciais, o paraíso do “Free Trade” nesta espécie de “Admirável Mundo Novo” onde nada mais de substancial ocorreria e o “Último Homem” passaria a reinar.
Mas a História não se compadece de oportunismos de circunstância mesmo quando mascarados com as imbecilidades da contrafacção intelectual de conceitos de timbre hegeliano, como o de “Fim da História” ou nietzscheano, como o de “Último Homem”, que à força de ser propalada pelos “media” dominados pelo Sistema do capital triunfante e muito na esteira do aforismo de Goebbels de que “uma mentira muitas vezes repetida, ascende à categoria de verdade”, passou a fazer figura de argumento sério. Mas a História, como era de esperar, continuou tragicamente com o 11 de Setembro de 2001 e tudo o que desde aí decorreu e decorrerá.
Se é verdade que a premissa do “Fim da História" se veio a revelar como um daqueles embustes para “adormecer meninos” do tipo “história da carochinha”, não é menos verdade que pelo menos transitoriamente, como tudo na vida e na própria História, está instalado o reino do “Último Homem” que é um “doente da vontade”; é o “homem” que “quer” muito pouco, quer, legitimamente, que o deixem em “paz”, quer dormir em “paz”, consumir em "paz", imbecilizar-se em ”paz” e em “paz” fazer de conta que é verdade, que a história acabou. Aliás, nem interessa muito o que é isso de ser “verdade” desde que continue a “dar” na televisão e noutros substitutos virtuais do mundo, que entretanto continua a ser terrivelmente real.
Como escreveu Pessoa há mais de setenta anos:
“- Come chocolates pequena, come chocolates”! (“Pipocas” também serve!)
Ora, nem sequer é preciso ser “tremendista” como o autor do “Zaratustra”, para saber que o reino do “Último Homem”, onde ele não é senhor, mas escravo, chegará por efeito desta ou de outra qualquer “crise”, ao fim.
Não houve Império que para sempre tivesse durado e todos caíram, o Persa, o de Alexandre, o Romano, o Português, o Castelhano, o Britânico, o Russo; porque não haveria de tombar o Americano?!.
Por isso, me orgulho da invulgar oportunidade de ter vivido por dentro a História no seu próprio devir, de ter sobrevivido para o contar e para poder negar aos charlatães do “post-modernismo” a última palavra!!!
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