
O Director-geral da Administração Interna, Paulo Machado, e o Director-geral da Administração Eleitoral, Jorge Miguéis, apresentaram os seus pedidos de demissão dos respectivos cargos após a "bronca" do Cartão do Cidadão que denegou, na prática, a milhares de eleitores o mais sagrado dos direitos democráticos - o voto. Ora, após a Secretária de Estado, Dalila Araújo, ter, por omissão, imputado responsabilidades aos seus subordinados directos, precisamente os dois Directores-gerais, pela opção de dispensar a notificação dos portadores do novo documento, e do Ministro da Administração Interna, Rui Pereira ter pedido desculpa aos portugueses pelo sucedido sem assumir ele próprio quaisquer responsabilidades no caso - o mínimo que devia ter feito como "homem livre e de bons costumes" e nos termos da tão decantada ética republicana. Infelizmente e desmentindo o esperado, a avaliar pelo perfl do Professor Rui Pereira, nada disso se passou e, com os rojões (e mais o verde tinto que também costuma ser muito bom), optou por encomendar um "estudo" à Universidade do Minho que imputou (sempre os filhos da "imputa") o sucedido a "questões de natureza tecnológica". Ora isso já o pagode sabia, o problema é que as "questões de natureza tecnológica" se estão a sobrepor à vontade e aos próprios direitos dos cidadãos, demais a mais, quando são "questões de natureza tecnológica" que decorrem do deslumbramento propangandístico de parvenus como o actual Primeiro-ministro y sus muchachos (y muchachas, porque no hace discriminación de género).
Há cerca de uns quinze anos, quando a Internet ainda custava os olhos da cara, comprei um equipamento informático com recurso a crédito e estipulei com a locadora um dia fixo para o saque da mensalidade, acontece que essa operação era sempre feita com vários dias de antecedência, desrespeitando o contrato. Comuniquei o facto ao meu Banco, então e como bom funcionário público, a Caixa Geral de Depósitos dizendo que não autorizava o saque antecipado. Após dança telefónica entre funcionários que iam subindo na hierarquia para subgerentes e gerentes, uma senhora acabou por me comunicar que "tinha razão, mas não podiam fazer nada porque estava tudo já em banda magnética". Acabei por responder : "Oh minha senhora, nem que fosse em Banda da Carris, então eu é que sou o vosso cliente, o dinheiro é meu, só têm que fazer o que eu digo". Como quem diz: "Afinal são meus amigos ou amigos da onça?"
Dando de barato que o caso "Cartão do Cidadão" foi apenas un affaire de incompetência e pressa "demagógico-tecnológica" (o Cartão do Cidadão foi anunciado como tendo valências que, afinal, não tem), não se consegue entender porque razão os piores receios de Huxley ("O Admirável Mundo Novo") e Orwell ("1984") estão a realizar-se: a "vontade" das máquinas (sobretudo se mal programadas) a prevalecer sobre os direitos dos cidadãos - que custaram vidas, Santo Deus.
Quanto às "Dalilas" e a ser verdade o que declararam os Directores-gerais demissionários, para além de terem sido os menos responsáveis e mais competentes dos intervenientes no processo, vem provar-se que estamos em pleno reino dos "passa culpas" e "enjeita responsabilidades" de que a nossa Administração Pública está cheia, trata-se sempre de "sacudir a água do capote" e "chutar para baixo" para aguentar o tacho.
Vergonha na cara, precisa-se!!!





