sexta-feira, 23 de outubro de 2015

João das "Regras"

Diz-se que um provérbio chinês reza qualquer coisa como: "Deus nos livre dos tempos interessantes" - deve ser uma interpretação,  pois não sei se os "chineses" falariam propriamente em algo como "Deus", mas para o caso tanto faz, o que importa é o sentido, no sentido (e passe a redundância) que os tempos interessantes costumam ser atribulados. Os tempos que ora vivemos trazem essa marca, a marca da História a acontecer e a manifestar-se à consciência enquanto acontece.
Cá pelo rincão há quem teime em não querer ver isso mesmo ou, com maior cinismo, vendo-o, deitar tinta de ferrado para tentar esconder o que é em si mesmo evidente. O caso dos resultados eleitorais de 4 de Outubro último trá-lo à saciedade aparecendo como guardiães de uma invocada "tradição", ainda que esta possa não estar plasmada na Lei, demais a mais estando Portugal longe de ser um exemplo da prevalência do Direito consuetudinário. Quer dizer que na interpretação desses doutos arúspices  da política prática (às vezes demasiado) tem dias que pode ser assim e outros em que tem que ser assado.
Dois exemplos de caso: as palavras de Sua Excelência o Senhor Presidente da República ao invocar a prática costumeira na indigitação do Primeiro-ministro, mesmo desprezando a estrita legalidade em toda a sua amplitude e proscrevendo para o limbo exterior forças políticas que representam um quinto dos votantes, o que institui de facto partidos de primeira e partidos de segunda, cabendo aos primeiros governar e aos segundos "dourar a pílula" da democracia. Alegação: não haver precedente,  o que, convenhamos, é fruste face à letra da Constituição que estipula "ter em conta os resultados eleitorais", o que está longe de ter uma leitura unívoca.
Mas eis que se apresenta um segundo caso: o da eleição do Presidente do órgão  Assembleia da República, os mesmos guardiães invocam a "regra instituída"(ai que  esta mania das "regras" já se está a tornar obsessiva, até por serem "regras" in partibus e  que valem só para o que interessa).
Consistindo essa "doutrina" na mesma alegada obrigatoriedade de eleição (mas que raio...) de um elemento da força que "ganhou" as eleições, como se os deputados não estivessem lá a fazer nada e para nada servissem as maiorias, neste ou naquele sentido (o candidato é eleito por maioria absoluta dos votos, algo que nenhuma força política está em condições de reclamar).
Se assim fosse nem valeria a pena haver procedimento de eleição com chamada nominal e tudo, bastaria proclamar do alto da tribuna o nome do ungido.
O que vale é que há "tradições" para tudo e para todos, havendo casos até em que o "speaker", correspondente ao Presidente do órgão, costuma ser da oposição, vejam lá o que as "tradições" podem ser.
 
Post Scriptum: desta vez parece que, mesmo por cá, a "tradição" já não é o que era.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

A "Democracia" Ingerente

Ao coro dos abencerragens que têm vindo a "alertar" para os "perigos" de um governo apoiado à esquerda  em Portugal e que vão "apelando" ao "bom senso" que, nunca nos podemos (olha, não rimou mas aludiu) esquecer  é "a coisa do mundo mais bem distribuída", juntou-se Joseph Daul presidente do Partido Popular Europeu (depois de Rajoy e quejandos, sem esquecer os "nossos" José Manuel "forget about the Durão" Barroso e Paulo Rangel). Sempre acenando com a Grécia e ameaçando de maneira cada vez menos subtil, como quem diz: Deixemo-nos de "filosofias", vamos ao que interessa, com "cenários" que vão até à "expulsão" do Euro (se calhar...).
Esta passagem ao acto, por enquanto verbal, configura uma descarada ingererência nos assuntos internos de um país que ainda é, pelo menos formalmente, independente. Passamos então da fase da democracia emergente ao da democracia ingerente.
Pelos vistos começou o "federalismo da cachaporra".

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

A Flauta de Pan (Eco de uma alegada vitória de Pirro)

Pan, deus silvestre grego,  cuja lusitana expressão política homológica  acaba de fazer eleger um representante na Assembleia da República (causando logo afirmações algo disparatadas em certos comentadores dizendo ser a primeira vez que um pequeno partido consegue eleger um deputado em Portugal, olvidando o PSN do Professor Manuel Sérgio) é também o étimo de pânico, estado que levava  (e leva) à paralisia dos viajantes que ao atravessar os bosques, dele eram tomados ao ouvir o som da sua flauta. A eleição de um deputado do PAN (Pessoas, Animais e Natureza) para a AR pode ler-se de várias maneiras (que isto da vida raramente é simples), os seus eleitores serão naturalmente os amigos dos  pets que se mobilizaram para votar numa organização em que se sentem representados e disso não temos dúvidas, ou será também algo de mais complexo e evidencia um certo fastio e uma escolha que não signifique mais do mesmo. Isto não quer dizer que os seus fundadores e ideólogos sejam meramente "amigos dos animais", as suas motivações são muito mais profundas nomeadamente quanto ao vértice "Natureza" e ao seu papel ontológico. Marca esta eleição, sem dúvida, a expressão de um ganho civilizacional pois transcende a imediata motivação "política".
Por outro lado e  em concomitância, não deixa de ser um sintoma em que não podemos deixar de integrar  a vitoriosa derrota da CDU (que perde um lugar no pódio, mas sobe em número de eleitores e representantes e  na sua costumeira auto-avaliação "ganha" sempre) e sobretudo do Bloco de Esquerda que  suplantou o seu próprio melhor de 2009 (dezasseis deputados) com dezanove mandatos, tornando-se a terceira força política em termos parlamentares.
Pergunta-se: de onde terão vindo  tantos votos ? De onde terá brotado este caudal tomando como certeza certa que a votação da CDU (e a do BE nem se fala), ultrapassa largamente o seu "núcleo duro"?
A resposta é de que estes migraram principalmente  do espaço potencial do PS que também aumentou e muito o seu número de eleitores e de eleitos, mas não de modo a impedir uma vitória, ainda que menos folgada do  que a de 2011, da "coligação" (PSD/CDS) que mesmo não conseguindo a tal "maioria", não deixará se ser assombroso, mas não "espantoso", que depois de um mandato inteiro de patifarias, tenha conseguido ganhar mesmo perdendo 700 mil votos.
Estas eleições foram férteis em wishful thinkings, bastante bem distribuídos por sinal, e a ausência de "espanto" para a vitória da dita "coligação" pode encontrar-se no título deste texto que evoca a Antiguidade Clássica. Ora, o clássico é sempre actual, os arquétipos estão lá todos - o medo da mudança e o temor de que o não seja (juntos e ao vivo), o  "Eco" (ninfa das belas palavras)  das "circunstâncias normais", os maiêuticos fantasmas recentes e as também recentes  alegadas "vitórias de Pirro" pretextadas para "justificar" uma defenestração que só seria "perdoada" pelo bálsamo do triunfo, conjuraram-se para que se reedite um interregno em que todo o insucesso será atribuído às costumeiras "forças de bloqueio".
Até a bandeira do "Livre" que dado como tendo um deputado eleito acabou por "morrer na praia", uma papoila, evoca a "dormideira" que se vai instalar nos próximos tempos de verdadeiro "ópio do povo".
E já estamos a ver este espectáculo em reprise.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

A Presciência Divina e a Liberdade Humana : A Regra e Pelo Menos Uma Excepção


"Are you playing God ?" é uma expressão idiomática na língua inglesa que se costuma utilizar para verberar comportamentos de soberba intelectual, nomeadamente quando alguém põe ao alcance das suas terreais possibilidades aquilo que só a Deus seria possível saber ou fazer acontecer. Trata-se de uma questão complexa, pois se assim não fosse o problema da ocorrência do mal seria muito difícil de justificar (é por demais conhecida a controvérsia da compatibilidade entre a existência de Deus e os horrores de Auschwitz). É também complexa a problemática da coexistência da presciência divina e da liberdade humana: se Deus tudo sabe e tudo determina, a acção humana não será verdadeiramente livre, pois estará sempre pré-determinada.
Aqui chegados, cumpre-nos fazer a pergunta com que se iniciou este texto ao Senhor Presidente da República, que já tratou de  lhe  transmitir duas preciosas informações:
Primeiro: Já sabe o que irá fazer na noite do dia 4, o que não deixa de ser estranho porque ainda faltam uns diazinhos para a "coisa"e, se assim é, talvez não valha a pena abrir as urnas e ter aquela trabalheira toda.
Segundo: Não participará nas Comemorações do 5 de Outubro, ou seja, da Implantação da mesma, pois estará a "reflectir" nos resultados das eleições da véspera.
Ora, perante a evidente inccongruência entre estas duas posturas,  logo se poderá daqui  depreender:
Sendo certo que a presciência divina não coarcta a liberdade humana, o que para Sua Excelência deverá ter dias, também é certo que já a deve ter fisgada.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

A Prevista (Resta Saber Por Quem ?) Vantagem do Embuste



Para a mentira ser segura e atingir profundidade  tem que trazer à mistura qualquer coisa de verdade….(A. Aleixo)

Um jornalista meu amigo (e já agora, com um bocadinho de "baba", meu antigo aluno) pergunta hoje na sua página do Facebook:
"Quem é que Passos quer  enganar ?" - no pressuposto de que não enganará ninguém (pelo menos ninguém que não queira ser enganado).
O problema é que pode enganar mesmo. A famigerada frase de Goebbels acerca do efeito da repetição da mentira para a sua "conversão" em "verdade" continua a surtir efeito. E como avisou Salazar: "Em política o que parece é". O PS cometeu vários erros tácticos, o primeiro dos quais foi aceitar os termos do "debate" envenenado. As guerras começam a vencer-se ou a perder-se na linguagem. O PS tem que, rapidamente e em força (passe esta outra "salazarice"), centrar o contra ataque, já algo tardio, numa desmontagem vigorosa dos truques e exprimi-lo em termos simples (mas não simplistas) para que toda a gente entenda os embustes e as moscambilhas argumentativas da coligação pela escolha de um leitmotiv que não se disperse, antes se concentre em poucos mas inquestionáveis alvos: os clamorosos "flops"  da (des) governação e a "desminagem" do terreno  pela escolha criteriosa mas firme dos argumentos e sobretudo dos factos.

 

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Olha Fausto Já Foste...(na morte de Vítor Silva Tavares)

Olha Vítor já foste! Tu que me deste a ler os  textos mais arrojados que animaram, no sentido próprio de terem dado alma, a minha irrequieta revolucionária juventude, de Débord a Herberto Hélder passando por Vaneigem e toda aquela plêiade de iconoclastas que fez da irreligiosidade do &Etc. uma hierofania periódica.
Um dos últimos números, já depois do 25 de Abril, ao relatar a morte e o bizarro enterro de um Fausto titulava:
"Olha Fausto Já Foste: O Espectáculo dos Prazeres ou os Prazeres do Espectáculo" - uma vez que o funeral do referido cidadão foi motivo para uma batalha campal entre duas forças políticas useiras e vezeiras em tais cenas, o PCP e o MRPP, esmerando-se desta vez ao ponto de terem usado o Cemitério dos Prazeres como campo de batalha pela posse do caixão e as campas e jazigos como barricadas e trincheiras, tendo como casus belli a reivindicação que cada uma das referidas agremiações fez da militância do falecido num caso de surreal ao vivo que então o tempo foi pródigo em produzir e  o &Etc. prodigioso a captar.
Agora que também já foste. Obrigado!!! Mil vezes Obrigado!!!
 

sábado, 19 de setembro de 2015

Uber über alles

 
O conflito Uber/taxistas traz à baila a velha questão do luddismo. O fantasma de Ned Ludd esvoaça na era da globalização actualizando o "eterno" conflito entre  as "vias" e as "ínvias".

terça-feira, 10 de junho de 2014

Ó da Guarda (Humano, Demasiado Humano - Já Não Há Cavaquistões)





O achaque de Cavaco, hoje na Guarda durante as comemorações do 10 de Junho, traz à colação duas verdades insofismáveis: a verdade da condição humana a vir ao de cima na sua vertente psicofisiológica, avisando que mesmo contra a vontade dos sujeitos o que tem que ser tem muita força e em ambiente de crispação e de má-consciência as síncopes, por muito "vagais" que sejam, acabam por ocorrer (aliás, com Cavaco Silva não foi  sequer a primeira vez, algo semelhante tinha ocorrido em 95 na posse de Guterres) e a verdade "político-territorial" de já não haver "Cavaquistões" e a contestação pública chegar a toda a parte, ainda que protagonizada por sindicalistas que pouco ou nada têm "sindicalizado", pelo menos nos últimos tempos, quando mais falta faria. Fica à vista a fragilidade do poder,  mal camuflada  pela indecorosa exibição do luxo oficial, mesmo quando se exige "austeridade" aos outros, sempre aos outros, e se considera que as "gorduras do Estado" são as pessoas e não as mordomias como o desfile obsceno de automóveis topo de gama e o inútil desperdício de recursos materiais e humanos para cuja mobilização a conjuntura exigiria, aí sim, alguma contenção e hábitos austeros.
A contradição evidente entre as discursatas e a parafernália exibida acarreta uma imensa crise de confiança de consequências ainda por vir, podendo não ser lá muito lisonjeiras. Quem semeia ventos costuma colher tempestades e a acrimónia governamental traduzida pelo não aperto de mão, que seria o mínimo protocolar, entre Passos e o Presidente do Tribunal Constitucional demonstra bem a que tipo de gente está o País entregue. Tudo porque o Tribunal Constitucional é, apesar do deplorável método de selecção dos juízes (agora lamentado por quem escolheu, queixando-se, ainda que despudoradamente, de si próprio) constituído por pessoas que fizeram as suas vidas e carreiras estando relativamente imunes a chantagens; ao contrário do que acontece no Parlamento enxameado pela indigência e pelo carreirismo, onde a sinecura  e a "vidinha" explicam muitas "fidelidades caninas" (sobretudo ao "princípio" do "rei morto", "rei posto") e sobrelevam largamente a independência e a autonomia requeridas para o  isento exercício dos cargos, de tal modo e tão sonsos que mesmo comparando com os tempos de Eça de Queirós nos fazem ter saudades do Conselheiro Acácio ou do próprio Palma Cavalão.
Ó da guarda ! Aqui da República !!!

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Ó Calinas Cala a Boca !!!







O que devia ser alvo de "um escrutínio muito maior" eram gajos destes para impedir que pudessem chegar a Primeiro-ministro a dizer calinadas como a de "determinar determinadas" e outras como "o mix de medidas" ou as soluções "chave na mão". 
Isto depois de ter, segundo o próprio, tido como livro de cabeceira "A Fenomenologia do Ser" de Jean-Paul Sartre. Mesmo que, porventura, a obra existisse,  o que não é o caso, deveria servir para fazer altura debaixo do travesseiro.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

A Paz Celestial


Passam hoje hoje vinte e cinco anos sobre os acontecimentos da Praça de Tiananmen ("Da Paz Celestial") em que o exército chinês, a mando da cúpula política do Partido Comunista da China, esmagou, literalmente, as manifestações estudantis que pediam  a democratização do regime. A nomenklatura chinesa após uma aparente hesitação inicial decidiu não embarcar em "perestroikas" e optou por reprimir com extrema brutalidade a dissidência e confirmar a sua "quadratura do círculo" com o "melhor" de dois mundos: "liberalismo" económico  (falso, aliás, o tecido empresarial é quase todo, se não mesmo todo, estatal) e ditadura política (essa absolutamente verdadeira).
Note-se que a capa ideológica da "democracia" (neo)liberal é apenas isso mesmo, uma "capa", um regime "comunista" como o chinês faz as delícias do plutocratas ocidentais que tentam impôr uma espécie de "sovietismo" neocapitalista: privatização dos ganhos, socialização das perdas e a democracia que se lixe, já que só serve para atrapalhar.
Nesse dia realizava-se uma reunião sindical na sala de professores da minha escola, que decorria pachorrentamente até entrar de rompante o colega Gonçalo, liga o televisor e exclama para o delegado sindical que conduzia os trabalhos:
- Olha Rui, vê com os teus próprios olhos o que os teus amigos comunistas estão a fazer aos estudantes na China. Vê!... Estão a matá-los, é o que é !!! 
Nisto o colega António, sempre muito mais preocupado com questões pragmáticas, retorquiu:
- Onde Gonçalo? Na China!... Isso é lá tão longe. Eles que se matem pá... Ó Rui diz lá mas é quanto é que vamos ganhar para o ano.

terça-feira, 3 de junho de 2014

Do Que Eles Nunca Abdicam...


Deve ser moda, ou "sinal dos tempos", depois do Papa "Emérito",  um Rei "demérito".
The Queen stands...

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Não Podem Ter Nada...


Isabel Jonet atribui a quebra nas recolhas do Banco Alimentar ao sol, à praia, ao futebol e ao "Rock in Rio".
Então e a "retoma" dos primos Passos & Portas? Não vê que já não "pecisam"!
Isto está a ficar tão animado que até os pobrezinhos já enjoaram o atum e o macarrão de marca branca.
Os portugueses voltaram aos "bifes"; por enquanto só dia sim, dia não.

Mano-a-Mano


Se Seguro é do "aparelho", Costa só pode ser do "electrodoméstico"...

Saldar a Dívida (Proposta)



Aos heróis pode e deve pedir-se sacrifícios pela Pátria.
Será que cinco anos do CR7 ao serviço do Bayern de Munique seriam suficientes para saldar a dívida ?

sábado, 31 de maio de 2014

PS - Um Dilema


Tal como Jorge Jesus reconhece não ser nenhum Eça de Queirós, também não será preciso ser  Maquiavel ou Hobbes para saber que a Moral e a Política raramente se deram bem, quanto mais a (i)moral e a "pulhítica".
É certo que o Partido Socialista emergiu das "Europeias" com um problema, uma vitória muito mitigada num escrutínio que dadas as, para muitas e muitos, trágicas circunstâncias seriam de ter ganho inequivocamente. É certo também que não houve discernimento para gerir os resultados e houve precipitação e dessintonia entre as proclamações e os semblantes. Também é certo que uma autêntico "exército das sombras" aproveitou o ensejo para, à falta de melhor, vir a terreiro, tendo como cabeça de proa o "mui nobre e nem sempre leal" edil de Lisboa, António Costa, reclamar a abertura de um processo eleitoral interno com vista à substituição do Secretário-geral em funções, António José  Seguro, pelo próprio Costa e consequente reviravolta na "nomenklatura" de turno no partido.
A alegação pretextada aponta para os fracos resultados, mas por detrás do arbusto está uma consabida imputação de "fraca figura" a Seguro e à sua "entourage" e a natural sede de poder dos apeados do "socratismo", não porque cheire a derrota nas Legislativas, mas precisamente porque cheira a vitória e é tempo para as tropas se aprontarem para o "business as usual", para o qual estarão hipoteticamente melhor preparadas.
Ora aqui é que "a porca torce o rabo". Se é verdade que a "experiência" é um critério de peso, também não será preciso ser nenhum Kant para ver que ela não é uma virtude em si mesma. Assim, é indubitável que Vale e Azevedo tem experiência de ser presidente do "glorioso", mas já se levantam muitas e fundadas dúvidas acerca da disposição da imensa maioria dos bons chefes de família que constituem a sua massa associativa em vê-lo reocupar o cargo. Outro argumento que se pode vir a revelar-se, pelo menos em parte, falível é o de que terá sido por causa da "palidez" mediática de Seguro que o resultado foi tão pouco expressivo. Não sei se o terá sido em amplitude, obviamente que é verdade que Seguro e, já agora, Assis o cabeça de lista às "Europeias", sendo pessoas estimáveis, não têm, à evidência, o "punch" para enfrentar o "vale tudo" demagógico-vigarístico do tandem Passos/Portas. Nesse campeonato a truculência de Costa marca pontos e aproxima-se mais do estilo emergente do tonitruante do emergente Marinho e Pinto que é preciso conter sob pena de termos para aí um novo "PRD". Mas a sombra de Sócrates continua a pairar, a memória do eleitorado não é assim tão curta, e o apoio declarado pelo "engenheiro da bancarrota" a Costa poderá, mais do que um trunfo, vir a revelar-se um "duque" em "mão" de "sena" triste?
A excelente série britânica "Yes Prime Minister" (made by BBC) expunha com pilhas de acerto a questão que o povo quer ver resolvida. O Reino Unido tem uma confissão religiosa de Estado oficial (Portugal, por exemplo, tem uma "oficiosa"), o Anglicanismo, e quem nomeia os bispos é o Governo de sua Majestade. Tendo-se dado, por morte ou resignação do titular, a vacatura de uma diocese, o Conselho de Ministros estava a decidir quem indicar. Perante todas as propostas expressas houve sempre objecções, um porque era muito conservador, outro porque tinha "affaires" extra-conjugais (os sacerdotes anglicanos não estão obrigados ao celibato e agora até já podem ser mulheres). Enfim, todos tinham ponderosos motivos contra si. Até que o Primeiro-ministro, dando um murro na mesa, exclamou:
- Meus senhores, arranjem lá um que, pelo menos, acredite em Deus !!!
O povo português e também por essa Europa fora, quer é que o Partido Socialista tenha líderes, e sobretudo políticas, que sejam socialistas.
É urgente clarificar a situação e separar as águas:
Congresso pois. Directas já !!!

segunda-feira, 26 de maio de 2014

O Alerta Vermelho







No rescaldo, ou na ressaca, como preferirem,  dos resultados das Europeias será preciso pôr alguns pontos no iis (sem esquecer os jotas pequeninos) porque, como de costume, anda por aí muita falácia tóxica:
- Não concorreram apenas duas forças políticas. Parece até que o boletim continha dezasseis siglas, se bem que os impressos de apuramento, pouco habituados a tanto "pluralismo", só trouxessem catorze linhas. Isto quer dizer que é uma narrativa, no mínimo, redutora, e, já agora, mistificadora dizer que tudo se resumiu a embate entre o PS de Seguro e a Aliança Portugal de Passos e Portas. Se a vitória do PS não foi de esmagar, a derrota da direita governamental foi de arrasar ("numbros" são "numbros" e não há mas, nem meio mas, escusam de chutar para canto).
- Está reeditada a velha "maioria de esquerda", que não costuma servir para nada, mas, enfim, está de volta.
- Marinho e Pinto no MPT, mas poderia ter sido noutro qualquer,  pode reeditar o "PRD" e sem televisão, imagine-se o que teria sido com ela.
- A literacia política do eleitorado português encontra-se a um nível muito elevado, os resultados de Marinho e Pinto e do "LIVRE" de Rui Tavares, sem mediatização e a elevada taxa de abstenção voluntária e deliberada (o dia até nem esteve de praia) estão aí para o comprovar.
- A CDU (ou seja o PCP) capitalizou o descontentamento com os "partidos do arco da governação", mas desta vez não se queixou de discriminação na cobertura mediática, nem teve razões para isso, os patrões da comunicação social resolveram tratá-lo bem.
- Não afirmo que seja intencional, mas como nestas coisas o que conta é o resultado e os juízos devem ser objectivos o PCP/CDU ao anunciar a apresentação de uma Moção de Censura ao Governo está a  anunciar que vai retribuir o favor e que lhe dará, e também ao PSD e ao CDS, uma oportunidade de ouro de aparecer por via da maioria, ainda absoluta, unido e ganhador. Cheira-me a "frete" e a "leninismo de trazer por casa". Mas nestas coisas dos "fretes" também se dizia que os costumava fazer a tia de um amigo meu, e não é que veio a tornar-se uma senhora de bem.
O PS foi prejudicado pela votação em Marinho e Pinto e o seu eco tonitruante populista e "justiceiro" truculento, sendo o único que pega de caras o tema da corrupção que os outros, esquerda radical incluída, vá-se lá a saber porquê, ignoram olimpicamente (ou nem tanto por tão etéreos motivos); foi prejudicado pela abstenção, enorme e sábia; foi prejudicado pelas tricas internas  e semi-internas (visto que os fautores são um caso à parte), como as facécias e os useiros e vezeiros melindres, que levam ao lavar da roupa suja em público, por parte do clã Barroso/Soares (excepção feita a João Soares), sempre imperscrutável e movido por insondáveis razões que a razão costuma desconhecer, e foi prejudicado pela memória recente (que costuma ser curta, mas nem tanto) de Sócrates, pelo estilo "Pinóquio" do "engenheiro" da bancarrota,  que  a contragosto ou não (para o caso tanto faz) chamou a "Troika", reavivada em doses cavalares pela "campanha negra" da coligação que, tirando matraquear nisso, nada mais disse ou fez; foi ainda prejudicado pela falta de "chama" de Seguro e de Assis que, sendo pessoas estimáveis e tendo já disputado a liderança do partido entre si, não têm "punch" para estas andanças. 
- O Bloco, sem Louçã, sem Rosas e sem (este irremediavelmente) Miguel Portas, abandonados os "temas fracturantes" em favor de causas com dono antigo (o PCP e a CGTP/Inter) continua no plano inclinado descendente de retorno à insignificância, assim como os filmes de "reprise", bons para beber umas "jolas" e para matar saudades dos arraiais e pouco mais que isso. Vá lá que a cabeça  de lista ainda logrou pôr de pé uns quantos votantes que lhe garantiram mais um lustro de permanência no PE que, como toda a gente sabe, é o melhor sítio onde um revolucionário pode estar, que o diga o Cohn-Bendit (aka Danny Le Rouge)  que esteve lá uma catrefada deles.

domingo, 25 de maio de 2014

A Final da Champions e o Erro do "Morgadinho"








Manos: no futebol, como na vida, nem sempre, na verdade quase nunca, ganham os que mais fazem por isso e para além do factor "sorte", há pequenas e discretas "habilidades" como a de dar um "tempo de compensação" de cinco longuíssimos minutos. Depois também houve alguns desacertos táctico-estratégicos da parte do "mister" Simeone (não sei se já repararam que é quase a "fotocópia" do Morgadinho; ou melhor, uma "fusão genética" entre o João Morgadinho e o Salvatore do filme "O Nome da Rosa" - o actor Ron Perlman, o que prova que nem de só de "Brad Pitts" vive Hollywood). Aquela de defender uma vantagem de apenas um golo com recurso ao "autocarro" é muito arriscada (que o diga o "mister" Jesus que no ano passado perdeu tudo, contra o FCP e o Chelsea, com essa opção e este ano conseguiu eliminar a Juventus com o mesmo expediente. Depois com o Sevilha a "estória" foi outra - e atenção eu sou sportinguista, mas, como os manos sabem, não sou faccioso). Aquela de pôr o Diego a jogar lesionado e "queimar" uma substituição aos nove minutos, também foi de "cabo de esquadra" (não sei que raio de departamento médico terá o Atlético que alinha em tratamentos fisiátricos à base de placenta de égua numa clínica em Belgrado. Nós, na Força Aérea, chamávamos a "coisa" da égua ao bivaque). Quanto à estratégia defensiva, o "Morgadinho" lá sabe a equipa que tem. Analisando os plantéis, eu, que não percebo nada de bola, entendo que o do Atlético é "operário" ou, se quisermos, de "carregadores de pianos"; o do Real tem individualidades que, como se viu, são capazes de desequilibrar (Sergio Ramos, Di Maria, Bale - que é um "bull", mas não um "bully", o CR7 está "tocado" e "poupou-se"). No prolongamento o Atlético "estourado" tentou levar a decisão para os "penaltis", mas o ácido láctico já era muito e pendeu para o lado "galáctico".
Devia haver um acordo de cavalheiros que impedisse "massacres" a dois minutos do fim (o CR7 por exemplo devia ter deliberadamente pontapeado o "esférico" para as "nuvens" ou para a linha lateral. Só lhe ficava bem, o "partido" já estava mais que ganho e um resultado justo nunca seria tão desnivelado). 
Escandaloso o comportamento de Juan Carlos de Bourbon, quando, perante duas equipas espanholas, se põe com públicas "intimidades" apenas com as vedetas do Real (Casillas por exemplo). 
Pró ano há mais e no futebol nunca há crise. Já os romanos diziam (e melhor faziam) que ao povo é preciso dar "pão e circo". Não tem nada que saber, na falta de um, reforça-se a dose do outro. 
Abraço Manos.

domingo, 11 de maio de 2014

O Aldrabão



"Este Governo é um perigo: não tem palavra e não tem limites."

     Heloísa Apolónia  (Comício da CDU - Coliseu de Lisboa - 10 de Maio de 2014)

quinta-feira, 1 de maio de 2014

A Tetralogia (ou os Quatro "F"s)


 
     "Uns comem os figos, a outros rebenta-lhes a boca."
 
                                         P. P. P. (Provérbio Popular Português)
 
Há quem diga que estamos a voltar à antiga trilogia do tempo da "outra senhora": "Fado, Futebol e  Fátima"; voz perspicaz alertou-me, agora que não há "Censura" (pelo menos oficial) e que os costumes estão liberalizados (veja-se o já histórico caso do sucesso do "Big Brother" ou o "Erro de Rangel", que não contratou o formato para a SIC, deixando-o para a TVI, tendo esta tomado a dianteira nas audiências até hoje, fiado no apego aos "bons costumes" e no "conservadorismo" do "povo português"), para a emergência de um quarto "F" (e dos grandes, diga-se de passagem).
 
Post Sriptum:
 
Povo de tal maneira "malhadiço" que corre o risco de encarar a anunciada e micro-faseada "devolução" do esbulho aos salários e às pensões como um "aumento", como, aliás, se passava (porque "já era") com o (nada inocente) reembolso estival do esbulho do IRS (apercebido como mais um "subsídio").
O "Manholas" de Santa Comba, que percebia desta "poda", bem avisava: "Em política, o que parece é".

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Já Perdi 100 Paus...

 
 
No ano lectivo de 1976/77 frequentava o Curso de Filosofia da Faculdade de Letras de Lisboa, quando dei por um colega muitíssimo discreto, silencioso, daquelas pessoas que parecem pairar e não se dá por andarem (andam como "fantasmas"). Era um colega africano, magro, de sorriso calmo e olhos grandes com uma expressão meiga.
Discreto em tudo, não se dava em particular com ninguém, assistia às aulas em silêncio sem nunca intervir o que, naqueles tempos  de debate permanente, era obra ! O homem, mais velho do que eu, mas sem idade aparente, como até muito tarde na vida é timbre dos africanos, quando interpelado respondia em voz muito baixa, com um sorriso quase como quem pede  desculpa,  umas breves palavras pouco mais que monossilábicas. Era um introvertido e tinha um ar (maneira de vestir e assim) muito pouco próspero.
Um dia, depois de uma aula, caminhando lado a lado nos corredores da Faculdade, lançou-me um pouco audível, mas incisivo:
- Tem 100 paus ?
Ouvi bem, o "fantasma" estava a pedir-me 100 escudos (hoje, 50 cêntimos de euro; ao tempo era dinheiro). Eu, que sou um coração-mole e por natureza generoso (pessoas que me querem bem costumam dizê-lo de outra maneira: dizem que sou um bocado assim a atirar para o "otário"), abri a carteira e estendi-lhe uma reluzente, acabadinha de sair, moeda de 100 escudos, tendo a plena consciência de que o mais certo era estar a "emprestadá-la".
É claro que o nosso amigo nunca mais pôs os pés nas aulas dessa cadeira (por sinal a única que tínhamos em comum), raramente tornei a vê-lo na Faculdade e mesmo por aí, no Metro ou na rua, quando me via,  punha a cabeça em baixo e mudava de passeio...
Passados vários anos, comecei a reparar num novo protagonista político da tão conturbada Guiné-Bissau, que usava como imagem de marca um barrete vermelho, e reconheci o meu colega e devedor, Joaquim, de seu "christian name", Yalá. Eis que chegou mesmo a ser eleito Presidente da República da Guiné, com o nome étnico de Kumba, e a ocupar o cargo entre 2000 e 2003. Parece que a coisa não correu lá muito bem e acabou por ser derrubado por um golpe de Estado militar (atendendo aos parâmetros locais, parece que teve sorte em sair ileso do processo).
Passei a dizer por brincadeira que qualquer dia havia de cobrar essa dívida, como credor internacional, com juros e correcção monetária; é que 100 escudos ao fim de mais de trinta anos deviam dar para uma lauta jantarada.
A primeira notícia que ouvi hoje, bem cedo na rádio, foi a da morte, aos 61 anos, de Kumba Yalá.
Já perdi 100 paus...