sábado, 11 de junho de 2011

Por que razão o velho aforismo "ninguém é insubstituível" não se aplica a Louçã, nem a Portas Paulo



A clássica reivindicação tribal da cabeça do líder em caso de desaire, esbarra, no caso do Bloco, numa impossibilidade logística. O Bloco de Esquerda não é um "partido" no sentido tradicional do termo é, aliás, como o nome não esconde, um "bloco" de forças da velha extrema esquerda (a UDP, o PSR), da área de uma certa Renovação Comunista (a Política XXI) e muitos outros, desde ex-MRPP até radicalistas folclóricos (a FER) e muitos independentes de gauche. O Bloco conseguiu fazer uma certa "quadratura do círculo" e reunir num projecto comum o realismo estalino-enverhoxista da UDP (excepto o grupo do, entretanto falecido, Francisco Martins Rodrigues, a "Política Operária", que ficou de fora por não alinhar com as "causas fracturantes" - afinal a "classe operária" não quer nada com droga e homossexualidade) - e o brilhantismo trotskista de Louçã - algo que, na esquerda clássica, equivale a misturar água e azeite.
Louçã é um intelectual da velha guarda, um homem inteligentíssimo, revolucionário precoce, é da minha geração e da minha idade (n. 1956) e esteve na Capela do Rato, orador de grande fôlego tribunício, temível em debate (ainda hoje estou para entender como se pode ter deixado "enrolar" pelas patranhas do Sócrates na Campanha Eleitoral de 2009 e não lhe ocorreu contrapor ao trampolineiro que o seu próprio Ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, tinha já dito que dedução fiscal dos PPR era para acabar e afinal o esbulho à "classe média" vinha do próprio governo do PS).
Ora, defenestrar Louçã significaria o suicídio político do Bloco, porque não será certamente em Fazenda ou numa das guapas deputadas eleitas que se encontrarão a solidez teórica e a verbosidade suficientes para manter o Bloco como força parlamentar - o que, já de si, foi uma proeza.
Agora, não ter ido conversar com a "Troika", suspender as causas fracturantes, se bem que o PS tenha dado um golpe de mestre ao ter como deputado Miguel Vale de Almeida, e jogar no puro terreno do PCP/CDU (a que acresce o Bloco, como aliás o CDS, não deter praticamente autarquias), foram, mais do que o apoio a Alegre, erros crassos que o Bloco pagou com a perda de metade do Grupo Parlamentar, regredindo aos oito deputados de 2005.
O Bloco tem que livrar-se do discurso assolapado do politicamente correcto, do namoro permanente ao "lumpen", que, como Marx e Lenine bem avisaram, é perigoso por contraproducente, e tem de mostrar o seu empenho na via da democracia socialista, única resposta política, económica e, por que não dizê-lo, moral, face à choldra onde o capitalismo selvagem nos trouxe.
Cuidado ainda, porque o PS na oposição é sempre de "esquerda" e o Bloco pode secar ainda mais.
Não pode e como ele o CDS com Portas, é "livrar-se" de Louçã.

5 comentários:

quimnar disse...

Ainda bem que tenho um motivo para discordar de ti. Em primeiro lugar, porque acho que o Louçã já há muito devia ter sido corrido. Poderiam ter aproveitado aquela tirada marialva e homofóbica contra o Portas no final do debate de 2005 (em contradição com uma carreira política alicerçada nas causas fracturantes - pelo vistos, homossexual tudo bem, desde que de esquerda e a favor do aborto) ou a ofensa aos seus princípios que seria ir falar às peixeiras em 2009 (lembrou-me uma militante do PCP que citava Nietzsche a dizer que o povo cheirava mal). Em segundo lugar, não vejo onde está esse vazio sem Louçã - pelo contrário, tenho visto muita gente mais interessante que o Louçã nos últimos tempos do Bloco. Em terceiro, a tese da seca quando o PS supostamente vira à esquerda por estar na oposição, é desmentida pela subida eleitoral (na minha opinião, a mais significativa para a projecção do BE) em 2005, perfeitamente consistente com a subida das Europeias de 2004 no tempo do Ferro. Assim, não me parece que o BE tenha representação por causa do Louçã, mas apesar do Louçã. Isso é uma visão do PS, demasiado PS. O fundamental do eleitorado do BE não tem nada a ver com o PS, não quer ver o PS (ou o PCP) nem pintado, seja de direita, de centro, de esquerda, de frente ou de trás, e abster-se-ia ou votaria em outras alternativas fora do centrão (ou do centralismo democrático/burocrático) se não votasse no BE. Obviamente, se o BE se deixasse tomar pelas suas facções mais esquerdistas correria o risco de desaparecer, mas muito mais corre se insistir numa coordenação tão cansada e tão pouco inspirada. O simples facto de Louçã estar na direcção do seu partido (contando com as variantes) há tanto tempo quanto o Alberto João está da pérola, é já contraditório com os ataques que a este último dirige. Mas julgar-se insubstituível após uma derrota tão clara, atinge foros de obscenidade política. Como é que podes julgar que alguém que toma tal atitude é a garantia da sobrevivência de uma partido? É mas é o seu cangalheiro. O BE nasce da necessidade das pessoas de esquerda terem em quem votar que não seja a pseudo-esquerda do PS ou o centralismo democrático do PCP - e essa necessidade vai continuar a existir. É isso que o PS continua a não querer ver, a base social que deu poder ao BE e que vai continuar a existir com Bloco ou sem ele. O PP está tão dependente do Portas porque não tem essa base, quase consumida pelo PSD - só lhe resta alguma base de tios e tias, até o mundo rural com que enche a boca passou-se há muito para o PSD. Daí que esteja dependente das capacidades retóricas de Portas. O mesmo não se passa com o Bloco, exactamente por muitas pessoas procurarem alguma esquerda democrática, sabendo há muito que o PS não é de esquerda (mesmo que finja às vezes, cada vez com menos convicção) e o PCP não é democrático (quem lá entre, ontem como hoje, se vai à procura disso, rapidamente tira daí as ideias).

imank disse...

Caríssimo:
Ainda bem que discordas de forma tão veemente. É um facto que Louçã é um "Trotsky parado no Inverno" (que é uma Primavera já distante), mas sinceramente, não estou a ver no que conheço do Bloco, cuja base eleitoral "operária" é dada pela UDP da Velha Cintura Industrial e não pelo people da Rua da Palma e do Chapiteau, alternativa ao carisma algo morno desse Robespierre com cara de puto marrão. Suficientemente polido para atrair alguma bourgeoisie e suficientemente argumentativo e moralizador para colar à ganga. A prova dos 9 é fácil de fazer, é provocar uma Convenção e fazer dele uma espécie de Carlos Carvalhas, só não sei é quem iria ser o "Jerónimo"?

quimnar disse...

Estás a pensar em militância e não em base social, ou estás a pensar numa base social que quase já não existe. Os militantes ainda são menos que nos outros partidos que poucos têm (e alguns só têm mais porque há muita gente a ver neles, e com razão, uma agência de emprego). A questão é a que interesses na sociedade um partido corresponde. A base operária da UDP já nem deve valer 1%. A grande base social que o BE pode ter (e, parcialmente, tem tido) está nos desgarrados e/ou precários trabalhadores e desempregados(muitos deles já longe da juventude), com cursos ou, pelo menos, o secundário feito. Gente individualista e desesperada, perdida na selva de cimento, mas não conhecendo e, porventura, não querendo outra coisa, sem perspectivas de melhoria na sua situação e sem ânimo para empreendedorismos ou coisas semelhantes, odiando o sistema e não fazendo ideia de qualquer alternativa consistente. Trata-se de gente isolada que não se integra, não deixam que se integre e não querem integrar-se em qualquer colectivo, seja sindicato, colectividade, sociedade secreta ou não, etc. Essa gente que, porventura, menosprezas porque não se apresenta com nenhuma orgânica social própria, representa muito mais a sociedade portuguesa hoje que qualquer operariado organizado e presumo que ainda virá a representar muito mais. Aliás, se muitos ainda hoje vivem à sombra burguesa da família, com o passar do tempo, se as coisas não mudarem, eles ou os seus filhos constituirão o novo proletariado. Neste momento, são pequenos burgueses de origem, ainda com mentalidade pequeno-burguesa, mas que não vêem no seu futuro senão a indigência. E daí a revolta que já sentem...

almeola disse...

Muito podia dizer, enquanto fundador do be, subscritor do documento inicial, membro da 1ª mesa nacional e atualmente, aderente do partido, mas aqui, faço 1 único reparo, ou 2. AJJardim é Presidente do Governo Regional da Madeira, desde Março de 1978. O Bloco foi fundado em 1999 e FL, é eleito Coordenador da Comissão Política do BE, a partir da IV Convenção do BE, em 2005."Contando com as variantes", o líder da LCI e do PSR,foi inicialmente João Cabral Fernandes e FL só surge + ou - como líder do PSR, na década de 80. Dar efeitos retroativos, à "liderança" do FL acho 1 pouco exagerado, além do mais, comparar (aos mais diversos níveis)o PSR (de q fui candidato independente nas Legislativas de 91) com o BE, é estar a comparar a Feira das Galveas com o Mercado Comum, como se dizia nos meus tempos d'Alentejo!

quimnar disse...

Lição dispensável porque tudo me era bem conhecido - e não altera o facto de FL estar há cerca de 30 anos a liderar a formação política em que se integra. O facto de passar da liderança da sua formação para a liderança daquilo que é, de facto, uma coligação onde a sua formação está incluída, altera exactamente o quê? Subir no nível de liderança desmente que ele esteja inamovível nessa liderança? Agora, uma coisa me parece óbvia: ou o Bloco muda a atitude dogmática que tem tido nos últimos dias, ou vai acabar com a dimensão dos antigos PSR e UDP. Há muita gente que, como eu, ainda votou nestas eleições no Bloco, mas está a atingir os limites da tolerância perante as atitudes arrogantes e fechadas exibidas por alguns dos seus dirigentes. Se o Bloco não quer voltar a ser uma daquelas formações esotéricas de extrema-esquerda entretida em delírios teóricos a que ninguém liga nenhuma(como eu bem conheci algumas), não pode menosprezar desta forma o seu eleitorado actual ou potencial. E a superioridade afectada com que afirmam que não são como os outros partidos onde o lider é uma espécie de ditador, não convence ninguém - porque qualquer outro lider partidário tem uma entourage que muitas vezes até manda mais do que ele e isso não altera o facto desses lideres, face à derrota, não se considerarem mais do que o partido e não impedirem ao menos uma renovação das caras e das formas de comunicação. E também dizer que Louçã não é lider chega a fazer lembrar outras figuras timoneiras, algumas bem recentes, que por decência prefiro nem nomear...