sábado, 20 de outubro de 2012

Quase Todos os Nomes





Em conversa com um colega, veio à colação um dos mais curiosos fenómenos político-mediáticos dos últimos tempos, o dos epítetos metafóricos com que, em autêntica desgarrada, tem sido mimoseado o Orçamento de Estado para 2013. "Esbulho", "saque", "confisco", "assalto" simplesmente, "assalto à mão armada", "devastação", "bomba atómica",  "cancro", "septicemia", "arrastão", "crime fiscal",  "genocídio",  "harakiri", "suicídio" e até "eutanásia", "monstro", "aberração" e por aí fora, em sucessiva e eloquente aproximação imagética à verdade dos factos (tendo em conta que não passa de um "aborto"). As mais das vezes vinda, um tanto ou quanto paradoxalmente (ou talvez nem tanto assim), da Direita e até pondo na mesma linha de tiro personalidades que não morrem propriamente de amores umas pelas outras...
Podemos queixar-nos do Orçamento, não nos podemos é queixar de falta de eloquência ou de imaginação discursiva.
Não o estranho, acho até bastante normal, num País em que a  principal matéria-prima - o bacalhau -  para mais de uma centena de pratos nacionais é pescado nas águas da Noruega ou do Canadá e o endoutrinamento do financeirismo  protestante tem por bastião-mor a Universidade Católica.

Post Scriptum: Na listagem faltam, como refere o "quimnar", o "napalm", a "psicopatia" e mais alguns epítetos de grande e adequada intensidade dramática. Mas a memória é o que é e, nestas idades, não é o que já foi...

6 comentários:

quimnar disse...

Como te pudeste esquecer do napalm fiscal, do terramoto fiscal (incluindo um sismo fiscal de magnitude 8), do arrastão fiscal e da psicopatia fiscal e social? Com estes, já nem vale a pena falar de epítetos como monstruosidade, golpe de misericórdia (na economia), simples bomba ou roubo ou assassínio (da economia), ultrapassagem da fadiga fiscal e massacre (este último em várias versões). Já agora, nas variações, também gostei de um “assalto fiscal de carácter degressivo”, especialmente porque se levássemos a metáfora a sério, isso significaria que seria um assalto cada vez mais pequeno, o que tenho a sensação que não seria o que se pretenderia dizer. Confesso que algumas delas já nem sei quem as disse. Infelizmente, registei-as sem menção ao autor.

quimnar disse...

Desculpa, já lá tinhas o arrastão.

quimnar disse...

Já agora, tendo já existido um harakiri, tenho pena que ainda não tenha ouvido um kamikaze ou um tsunami. Além disso, há uma certa falta de expressões apocalípticas, como um holocausto, um armagedão; ou uma junção destas com a ciência numa entropia qualquer ou num big crunch... Mesmo quando há um excesso metafórico, poder-se-ia ir sempre mais além.

imank disse...

Ó meu caro e referido interlocutor, é verdade, tens razão: vou acrescentar o "napalm", já que a memória não pode dar para tudo. Também eu as vim registando, nuns casos lembro-me do autor, noutros nem por isso.

imank disse...

Se, como muito bem dizes, a maré metafórica não tem limites. Porque não um "sociocídio" através da "Solução Final" aplicada à classe média?
Ficamos assim no limiar de uma nova "Idade Média" (mas na "Alta", no tempo da Barbárie").

José Augusto Batista disse...

já viste o que é a politica hoje em dia? ... uma "SIMPLES" narrativa. Já nem é retórica, nem demagogia ... é pura ficção sintática. O verdadeiro problema é que para lá disto fica a ...realidade. Quanto à idade média, da pedra, ou outra, do erectus, habilis ou sapiens neandertalensis ... como diziam os "Joões" David Nunes e de Sousa Monteiro ... não os temam pois já lá estamos!(sei que é um bocado codex ...mas)