segunda-feira, 5 de outubro de 2015

A Flauta de Pan (Eco de uma alegada vitória de Pirro)

Pan, deus silvestre grego,  cuja lusitana expressão política homológica  acaba de fazer eleger um representante na Assembleia da República (causando logo afirmações algo disparatadas em certos comentadores dizendo ser a primeira vez que um pequeno partido consegue eleger um deputado em Portugal, olvidando o PSN do Professor Manuel Sérgio) é também o étimo de pânico, estado que levava  (e leva) à paralisia dos viajantes que ao atravessar os bosques, dele eram tomados ao ouvir o som da sua flauta. A eleição de um deputado do PAN (Pessoas, Animais e Natureza) para a AR pode ler-se de várias maneiras (que isto da vida raramente é simples), os seus eleitores serão naturalmente os amigos dos  pets que se mobilizaram para votar numa organização em que se sentem representados e disso não temos dúvidas, ou será também algo de mais complexo e evidencia um certo fastio e uma escolha que não signifique mais do mesmo. Isto não quer dizer que os seus fundadores e ideólogos sejam meramente "amigos dos animais", as suas motivações são muito mais profundas nomeadamente quanto ao vértice "Natureza" e ao seu papel ontológico. Marca esta eleição, sem dúvida, a expressão de um ganho civilizacional pois transcende a imediata motivação "política".
Por outro lado e  em concomitância, não deixa de ser um sintoma em que não podemos deixar de integrar  a vitoriosa derrota da CDU (que perde um lugar no pódio, mas sobe em número de eleitores e representantes e  na sua costumeira auto-avaliação "ganha" sempre) e sobretudo do Bloco de Esquerda que  suplantou o seu próprio melhor de 2009 (dezasseis deputados) com dezanove mandatos, tornando-se a terceira força política em termos parlamentares.
Pergunta-se: de onde terão vindo  tantos votos ? De onde terá brotado este caudal tomando como certeza certa que a votação da CDU (e a do BE nem se fala), ultrapassa largamente o seu "núcleo duro"?
A resposta é de que estes migraram principalmente  do espaço potencial do PS que também aumentou e muito o seu número de eleitores e de eleitos, mas não de modo a impedir uma vitória, ainda que menos folgada do  que a de 2011, da "coligação" (PSD/CDS) que mesmo não conseguindo a tal "maioria", não deixará se ser assombroso, mas não "espantoso", que depois de um mandato inteiro de patifarias, tenha conseguido ganhar mesmo perdendo 700 mil votos.
Estas eleições foram férteis em wishful thinkings, bastante bem distribuídos por sinal, e a ausência de "espanto" para a vitória da dita "coligação" pode encontrar-se no título deste texto que evoca a Antiguidade Clássica. Ora, o clássico é sempre actual, os arquétipos estão lá todos - o medo da mudança e o temor de que o não seja (juntos e ao vivo), o  "Eco" (ninfa das belas palavras)  das "circunstâncias normais", os maiêuticos fantasmas recentes e as também recentes  alegadas "vitórias de Pirro" pretextadas para "justificar" uma defenestração que só seria "perdoada" pelo bálsamo do triunfo, conjuraram-se para que se reedite um interregno em que todo o insucesso será atribuído às costumeiras "forças de bloqueio".
Até a bandeira do "Livre" que dado como tendo um deputado eleito acabou por "morrer na praia", uma papoila, evoca a "dormideira" que se vai instalar nos próximos tempos de verdadeiro "ópio do povo".
E já estamos a ver este espectáculo em reprise.

7 comentários:

Rui Panarra Curto disse...

Mais um excelente texto Tó Zé. Com Pan's e Páf's isto precisa é de umas " lambadas " de esclarecimento ao pessoal deste " burgo " que continua a seguir o ditado " quanto mais me bates ... " !!
Já agora porque será que o Costa foi tão célere , quanto atrapalhado, no seu discurso de derrota a dar os parabéns e a pôr-se " á disposição de coelho & passos , firma já conhecida , em vez de escolher Governar com um Programa capaz de unir em termos de objectivos ( tantos em comum, a julgar pelas propagandas eleitorais ) uma REAL maioria na AR . Nota ; PS + Bloco + Pan irão ter tantos votos como a Cu - ligação Páf Páf . Já não falo do PCP porque os ódios de estimação " democráticos " entre PS e PCP hão-de perdurar e durar e ... como as pilhas Duracel.
Abraço amigo e continua a recuperar bem , penso que é o que está a acontecer . Breve nos veremos.

antónio bagorro disse...

Aquilo que se receava veio a acontecer, o PS não se aguentou no confronto eleitoral e não soube explorar as asneiras, os escandalos e as mentiras em que o governo foi pródigo. A esperança de uma mudança morreu na praia...para desgosto da maioria dos cidadãos!!!Um Abraço

imank disse...

Obrigado queridos amigos.
A humsns faculdade de seguir ínvios trilhos e perseguir (in)sondáveis desígnios é, de facto, infinita.
Abraço,

Alberto disse...

Olá Mano. Vamos de facto mal a pior em termos de maturidade Política, no entanto é revelador o amadurismo da campanha deste PS, que é tão enfadonho e tão párco em idéias que não consegue construir soluções de alternativa a esta direita que segue os designios impuros de outrém. Páira no ar o cheiro as " Vasconçelos "..... Boa produção voltaste às luzes da ribálta. Abraço ,

imank disse...

Olá Mano:
Está o baile armado!
Obrigado.
Abraço.

Ana Maria Lucas disse...

Tozé, que bom poder usufruir dos teus,sempre clarividentes, comentários!
Beijinho

imank disse...

Obrigado querida amiga.
Beijinho.