domingo, 7 de agosto de 2011

A Indemnização





Apesar de não parecer, estamos em Agosto, mês em que, mesmo antes do "Estado Social", se convencionou que seriam as férias. Com a crise a apertar e sem fim à vista, vai sendo necessário restaurar algumas práticas correntes em Portugal quando ainda se vivia num País "pobre" (mas bastante mais feliz, diga-se de passagem).
Quem tem mais de 40 anos lembra-se da mata de Monte Gordo, do eucaliptal da Praia da Rocha (onde agora está a Marina), do "Monte dos Vendavais" em Sesimbra e do "Monte Branco" (agora quase raso) na Arrábida, cheios de tendas, no auge do Campismo dito "selvagem" que, nalguns casos, chegava a meter frigoríficos e máquinas de lavar com os respectivos geradores.
Foi no "Monte Branco" da Arrábida que experienciei mais uma daquelas situações surrealistas em que, afortunadamente, a minha vida tem sido fértil. Nos inícios dos anos 80, num Verão quente como era normal na época, montei uma "canadiana" André Jamet no areal na expectativa de lá ficar quinze dias, no tempo em que o Portinho da Arrábida para além das casas que o "Pimentinha" mandou demolir, tinha barracas, contentores, tendas e autênticas tabancas que vendiam de tudo e uma só fonte (a da "paciência") de água a gotejar (não sei se estão a ver o "filme").
Uma manhã de sábado, na altura isso era para mim irrelevante, fui acordado com barulho de vozearia e espreitei para fora da tenda, vi então uns tipos de cerca de quarenta anos, barrigudos e de calções pretos, a cravarem uns remos na areia e a fazerem passar uns toldos com ilhoses que uniam com cordas de nylon por cima da tenda. Reparei, entretanto, que tinham vindo em botes provenientes de duas traineiras com matrícula de Setúbal, de onde tinham desembarcado todo o "arsenal" que incluía, para além dos remos e dos toldos, garrafas de gás de tamanho "normal" com adaptadores para fogão, tachos e panelas enormes, assadores, frigideiras, sacos de carvão, caixas de sardinhas e kilos de febras e batatas e alfaces e tomates e cebolas e pepinos e enormes melancias e pães casqueiros e os indispensáveis garrafões de tinto, que ficaram a recato debaixo dos, entretanto montados, toldos e branco, postos a refrescar na areia molhada, presos aos remos com umas guitas (afinal eram para ser tragados, mas não pelo mar). Desembarcaram também as anafadas mulheres de bikinis de "gola alta" (foi antes do Big Brother e Portugal era ainda um país pudico) e dúzias de crianças, para as quais traziam os colchões pneumáticos, mais as respectivas bóias e braçadeiras, mais o raio das bolas e muitas, muitas, sandes já feitas, mais as enormes geleiras azuis com montes de gelados, sem esquecer as coca-colas para os petizes e as cervejolas para os barrigudos, fresquinhas e loiras...
Traziam ainda, equipadas e prontas a actuar, um "naipe" de um dos maiores pilares da civilização nacional, de bata preta, panamá e avental, vinham as sogras que assim que puseram os pés em terra começaram a descascar batatas, a fazer salada e, ao aproximar da hora do almoço, a fritar "jaquinzinhos" e assar sardinhas e febras, mais uma monumental tachada de arroz de tomate e pimentos, enquanto as lontras das noras discutiam telenovelas e faziam tricot e os barrigudos, entre dois mergulhos e uma ou outra chapada nos putos, que só faziam "merda", diga-se de passagem, beberricavam uns goles de Martini, Moscatel ou Ricard e também, em alternativa, Pernod.
Nós, siderados com a invasão, fomos ao banho na secreta esperança de que o dia fosse curto. Preparávamo-nos para as latas de conserva da praxe, quando um dos barrigudos nos gritou:
- Eh rapaziada, não querem comer cá com a gente?! Não tenham vergonha, olhem que é de boa vontade!
Ora convites destes são ordens e como, se não os puderes vencer (o que era literalmente o caso) junta-te a eles, nós, esfaimados, fomo-nos chegando e foi encher a mula atá quase às sete da tarde, hora em que começaram a desmontar o cerco, a levantar o arraial e a embarcar os apetrechos e as sogras, não sem que antes, para a "sossega", tivéssemos deixado de beber um, muito razoável, café de cafeteira e uns dedais de scotch.
Se tornaram aparecer? Nunca o saberemos, pois nunca mais acampámos assim. Aburguesámo-nos!
A crise abre agora essa janela de oportunidade. Mas o Mundo está muito menos generoso...

3 comentários:

olhodeagua disse...

Agora, sim, estou de ferias: apreciando recordacoes com vista para a anicha. Parabens/obrigado AJFerreira.

imank disse...

Muito obrigado "olhodeagua".
Tenha umas excelentes férias.

AJFerreira

Carlos Botelho disse...

Delicioso!