sábado, 8 de setembro de 2012

A "Amêndoa" e o "Cimento"







Passos veio agora anunciar as novas  medidas de "austeridade" que permitem acatar (na verdade espera que permitam contornar) o acórdão do Tribunal Constitucional. Foi uma intervenção atabalhoada e palavrosa, mostrando afinal falta de coragem e procrastinação elocutória, pois o "embrulho", de muito pouca valia retórica, diga-se de passagem, serviu apenas de longo intróito para uma frustre justificação de questões semânticas (ou melhor, pragmáticas) como a de explicar que o brutal aumento de descontos impostos aos trabalhadores (e diminuição ao patronato) não é uma subida de "impostos", mas apenas de "taxas", "nuance" muito importante para todos (com especial destaque para o cinismo do CDS/PP que, ainda há instantes, arrepelava os cabelos e rasgava as vestes contra o "aumento da carga fiscal") menos para aqueles que as vão sofrer.
Trata-se de mais uma gigantesca operação Robin Hood às avessas, roubar ao Trabalho para engordar o Capital. Ao contrário do que proclamam os "vendilhões do templo", Marx e Lenine estão longe de estar "mortos" quanto à natureza e às funções do Estado que significa sempre a ditadura de uma "classe" sobre as outras. Em Portugal (e não só), às cavalitas da "troika", os mandaretes dos grandes interesses "privados" decidiram aproveitar a larguíssima janela de oportunidade para abocanhar o património público e promover a maior e mais sórdida transferência de recursos de que há memória.
Os florilégios de Passos, ainda que de muito fraca qualidade,  certamente bebidos na  compreensão juvenil de uma leitura precoce de "A Fenomenologia do Ser", obra inexistente que ele próprio atribui a Jean-Paul Sartre, revelando nisto a "escola" do "tio" Santana com a facécia dos "concertos para violino de Chopin", mas com um impacto muito mais devastador, veio, mais uma vez, tornar verídica a velha relação da "amêndoa", que é sempre pior, com o "cimento".
No fundo trata-se apenas de estender o esbulho aos trabalhadores do sector privado, sem o aligeirar a ninguém (a não ser ao patronato, claro), num exercício de rapacidade "equitativa".
E já nos fere os tímpanos o choro das carpideiras do costume; agora só é preciso que, desde o "líder da oposição" cujo partido, que é também o meu, tem largas culpas no cartório, até ao "avô cantigas" de Boliqueime/Belém, passando pelo Tribunal Constitucional, pelos sindicatos e por toda a "sociedade civil", mesmo falando menos, faça mais. À generalidade dos portugueses só lhes resta vir para a rua.


Zeca Afonso - Venham Mais Cinco (11/12) por Videos_Portugal

4 comentários:

quimnar disse...

Então, não deu um jeitaço a decisão do TC? O formato concreto foi apenas uma forma de justificar retórica e semanticamente a posição de cada qual. Mais ainda, abre já mais uma porta para uma futura de austeridade: quando os números se mostrarem de novo insuficientes, pesarosamente poderão lastimar ter que, afinal, tirar de novo o subsídio agora "devolvido" à Função Pública, esquecendo-se, na altura, da sua equiparação à subida da taxa social... Até poderão evocar que a taxa social idêntica à dos privados pertence a outro domínio, o da sustentabilidade da segurança social, devendo todos ter uma contribuição idêntica para essa sustentabilidade.

quimnar disse...

Falta a palavra "medida" no comentário anterior.

imank disse...

Para estarmos na Grécia só nos falta a Acrópole, que está sempre fechada para obras. Quanto ao resto o nosso branco é mais encorpado, temos o hábito de assar sardinhas e de as comer e o nosso mar tem marés.

Carlos Guinote disse...

Depois de ler o "post", achei bem que tivesse informado que o "avô cantigas" era o de Boliqueime, porque o verdadeiro, encheu o ouvido dos meus filhos nos anos 70 e 80, de muito prazer...
Espero que a generalidade dos portugueses oiçam o apelo e venham efetivamente para a rua.
A luta não deve parar, estamos a ficar todos bem tramados.