sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

CADA COR, SEU PALADAR !

Quando o "Barco do Barreiro" ainda era o "Barco do Barreiro", ou seja aquele robusto ferry, (qual "cacilheiro", qual quê!), que levava a tal meia-hora (e assim permaneceu durante décadas), o que era um tempo razoavelmente longo que dava para arranjar namoros e até "arranjinhos" mais ou menos clandestinos, dava para ler, para estudar, para jogar às cartas a "doer" ( a cave era o "casino" ) e até para dormir ( quantos não fizeram várias viagens de ida e volta sem dar por isso)?
Havia uns homens com umas pastas de cabedal sempre inchadas que corriam os transportes da zona da Grande Lisboa, (barcos, metro e combóios suburbanos), vendendo "paladares" (no Barreiro que nisto das idiossincrassias "dialectais" foi, infelizmente já não é, já está também "globalizado", muito pródigo, também chamados "bananins"), uns rebuçados artesanais embrulhados em papéis de celofane coloridos, com sabores a frutas, que eles apregoavam:
- "Cada cor, seu paladar"!
Mas não vendiam só isso, vendiam também lotaria, utilidades várias (pilhas, pensos rápidos, pentes, corta-unhas), livros de cowboys e da Corín Tellado, "para entreter na viagem" e até algumas "inutilidades" como talismãs.
Destes, havia um certo sortido: figas, "signosaimões" (ou seja, "signos de Salomão", mais precisamente, "estrelas de David") e cornos, tudo de plástico branco amarelado a imitar marfim e com uma argolinha para pendurar nos fios e usar ao pescoço para "dar sorte".
Um desses homens, quase todos já na meia idade, tinha um humor muito sui generis; era aquilo que se pode chamar um "castiço"; aliás característica não rara neste tipo de pessoas com um quotidiano bem menos formal do que o que era comum na época.
Esse, quando entrava nos salões do barco apinhados de gente à hora de ponta, lançava, alto e bom som, o seu pregão:
- "Cornos, quem quer cornos"?!
Perante a silenciosa estupefacção dos circunstantes, concluía:
- "Ninguém quer?! Já vi que estão servidos"!

2 comentários:

vereador Luis Braga disse...

Para quando Tòzé o tal livro....???
Um abraço

Anti PS Neoliberal disse...

Recordações, recordar é viver, uma história para sorrir e ver como a "vida" hoje é diferente, melhor? pior? diferente por certo.

Também dava uma história bonita as viagens que fizeram aqueles que com 10 anos tiveram de ir estudar para o Liceu em Setúbal, com a pasta dos livros e a lancheira com o almoço, no comboio das 7 da manhã.