sábado, 19 de setembro de 2009

"Jerónimo"!

"Jerónimo" era o grito que significava o abate de árvores de grande porte nos filmes americanos da minha juventude, sem que eu nunca tivesse sabido porquê, é também o nome próprio do Secretário-geral do PCP, homem de ar simultaneamente afável e enérgico, robusto e bem conservado, que denota o ar de "proleta qb", ainda com o corte de cabelo "à francesa" típico de primaveras já idas.
Não sendo particularmente forte em debates, ainda me lembro de um em que ficou, dir-se-ia que providencialmente, afónico, transmite, no entanto a singelo, uma grande autenticidade, falando simples, "curto e grosso" como o "povão" das antigas "cinturas industrias" aprecia. É, por isso, benne trovata aquela caracterização do "comunismo de sociedade recreativa" que lhe foi aposta.
Mas é mais que isso, é a personificação de um "comunismo visceral", de um certo "regresso às origens" mais intuído do que racionalizado. Afinal as massas sempre preferiram Estalines a Trotskys, Togliattis a Gramscis, (Cunhal foi a síntese, virtualmente irrepetível, uma espécie de "Princípe Perfeito" em versão red).
Jerónimo, o tio "Jó Jó" para os jovens de classe média que gostam dele , mas votam no Bloco, teve esta semana duas intervenções de destaque.
A primeira de grande alcance "filosófico", aliás anunciado pelo próprio, foi em resposta a uma pergunta de jornalista acerca da "dissidência" de Domingos Lopes, que parece ter reagido demasiado "a frio" à invasão da Checoslováquia pelas forças do Pacto de Varsóvia; de facto quarenta anos de reflexão é muito "estudo", sobretudo porque produz efeitos práticos (a demissão do PCP) quando já nem sequer existem a Checoslováquia - país invadido, o Pacto de Varsóvia - força invasora, nem a União Soviética - potência mandante da invasão.
Mas adiante, que isto cada um é como cada qual, Jerónimo comentou:
"Pode alguém sair de um lugar onde já não está"?!
Ora, nem Derrida teria dito melhor. É que nisto da "Filosofia", como, de resto em tudo na vida, o que é recebido como "profundo" ou "ridículo" não é tanto o que é dito, mas muito mais quem o diz.
Assim, a mesma afirmação tanto pode ser o suprassumo (não o "supersumo" de Luís Filipe Vieira, outro grande "filósofo") da Metafísica como uma "bacorada" qualquer.
Por exemplo: "Estar vivo é o contrário de estar morto" dito como foi por Lili Caneças tornou-se exemplo da mais decantada e "lapalisseana" possidoneira, no entanto, o mesmo é afirmado por Platão no Fédon (71c) sem que ninguém se espante (claro que noutro contexto e sem o tom paródico que lhe estou a dar e este é o truque de Sócrates e seus advisors - descontextualizar e assim, vender "gato por lebre").
Jerónimo tem tido outras prestações "lapidares" e verdadeiramente desarmantes - no debate com Manuela Ferreira Leite e perante o argumento dela que "o que é preciso é trabalho", imediatamente ripostou que "o que é preciso é, também, dinheiro, pois no tempo da escravatura trabalho era o que não faltava".
Quando lhe perguntaram se tinha aplicações financeiras, PPRs por exemplo,a propósito do "caso" Louçã (oh como a "orquestra" está afinada), respondeu que "nem sequer tem conta bancária" (!!!)
O que não disse é que, neste particular, está assim um pouco, mutatis mutandis, como a Rainha de Inglaterra, pois só precisa de ter conta bancária quem tem que pagar alguma coisa.

11 comentários:

quimnar disse...

Só para te corrigir a citação: o que ele disse foi que, no tempo da escravatura, havia muito trabalho, não havia era direitos. Um abraço.

ARISTIDES DUARTE disse...

Mas o Jerónimo cumprimenta ou não peixeiras? É que o Louçã não o faz...
E atitudes "lapalissianas" como as de Sócrates com o interesse "geral" também não me convencem. Assim, à cautela, não vá o Bloco entrar no Governo e ser muleta do PS, voto mesmo é na CDU. Com esse voto nunca me arrependo. No dia 28 a CDU já está aí outra vez a protestar. E é o que é preciso principalmente, para quem, como eu, sou professor e só me queixo dos Concursos (fiquei muito longe de casa , por 4 anos- o resto até são peanuts).

imank disse...

Quim:
Como sabes ouço mal, é já o "PDI", e no meio da "dialéctica" do debate, o Jerónimo que é também um cavalheiro, de extracção popular, mas um cavalheiro, disse-o em tom baixo, de modo que citei de ouvido.
Obrigado pela correcção, mas o "erro" não desvirtua!
Um abraço!"
Tozé

imank disse...

Caro Aristides Duarte:
Tenho um enorme respeito por Jerónimo de Sousa, pelo PCP e pelos seus eleitores como, pelos vistos, é o seu caso.
Já quanto ao resto serem "peanuts" não concordo em absoluto, pois este Governo lançou sobre os professores a maior "campanha negra" da História de Portugal e "quem não se sente, não é filho de boa gente"!

ARISTIDES DUARTE disse...

Compreendo a sua posição sobre serem ou não "peanuts". O que eu queria dizer é que, para mim, a avaliação é um "peanut" comparada com o facto de ser colocado longe de casa. Isso , para mim, é que me interessa mais e foi tudo por culpa deste Governo. Não lhe posso perdoar este Concurso de professores (ainda ontem ouvi um professor, na televisão, a dizer que houve injustiças no concurso a titular, mas afinal esta gente quer ou não a divisão da carreira?- eu não quero). Nem me interessa ser titular no Agrupamento onde estou que fica a 120 Km da minha residência.
Mais um "peanut" para mim.
O Concurso de professores deste ano (e eu era QZP ) foi dos piores de que há memória. Com a pressa de dizerem que já estavam colocados os professores todos não apuraram as vagas todas e depois lixei-me eu e mais uns quantos.
Seio bem o que foi a campanha deste Governo contra os professores e isso também não tem perdão, mas tudo isso são (para mim) "peanuts" se compararmos com uma colocação a 120 Km de casa. Quem está perto de casa terá outras preocupações. A minha é mais esta. É que, além de tudo o mais é por 4 anos... Porra!!!

Anti PS Neoliberal disse...

Como o entendo Aristides Duarte, eu andei mais de 18 anos com a "barraca às costas" e não era a 120 Km de casa e não sou professor.

ARISTIDES DUARTE disse...

É isso mesmo, caro Anti PS Neo Liberal. Quem sabe o que isto é, sabe o que custa. Atenção que eu tenho 20 anos de serviço e quase 50 anos de idade. Já não estou para "grandes curvas". Se tivesse 20 e tal anos...

imank disse...

Caro Aristides Duarte:
A questão principal, para mim, nem é sequer a "avaliação", é precisamente o facto de não ser de modo algum uma verdadeira avaliação, mas antes uma monstruosidade burocrática destinada apenas a aviltar por "escravização", a nossa dignidade profissional.
Uma avaliação séria é essencial ao desempenho de qualquer tarefa ou função e o que resultou é tudo menos sério, resume-se a uma palhaçada demagógica com intuitos "justicialistas" da parte de um Governo que decidiu nas palavras do "eminente" Marcos Prestrelo (ou Perestrello não me lembro) criar "alguma tensão para que a população aceitasse as reformas". Por outras palavras decidiu "atirar-nos às feras" e "dar sangue à populaça", o nosso, claro! Activando, à nossa custa, os mecanismos velhos como o mundo do ressentimento e da inveja sociais num país também velho e cronicamente pobre (também de espírito,que uma coisa costuma implicar a outra) como o nosso.
Ora, se fossem "criar tensão" com a mãezinha deles teriam feito melhor figura!
Então qual será o Sistema de Avaliação que implica menções em cerca de duas centenas de itens?!
E qual será o Sistema de Avaliação de Professores que dispensa os avaliados, se se conformarenm com a classificação de Bom, de terem aulas observadas?
Então o que faz um professor? Portefólios e tretas?!
Para além de toda a baixíssima campanha de insultos e intimidações, completamente inaudita em Portugal, movida contra aos professores que serviram de bode expiatório e como manobra de diversão para entreter o pagode, distraindo-o de outras patifarias.
Se era só por dinheiro, mais valia terem dito logo a verdade. Mas o pior é que não era só por isso, foi sobretudo para nos humilhar, para mostrar "quem manda" e para nos funcionarizar, para nos "reduzir a pó"!
E eu pergunto quem são estas alimárias com "licenciaturas" tiradas por fax e diplomas passados aos domingos para nos fazerem tais malfeitorias?!
Ainda por cima prejudicando seriamente o "interesse geral", conceito com que o "Pinóquio" agora anda a encher a boca, sem que pareça saber o que quererá isso dizer. É que ele só toca de ouvido e mal!!!

ARISTIDES DUARTE disse...

Concordo totalmente consigo IMANK
Sei bem que foi isso que eles fizeram. Vou aqui usar um nome que fica ,todo ele, à minha responsabilidade. Bandidos!!! Com todas as letras.
Mas, mesmo assim a bandidagem não ficou contente e ainda fez mais uma patifaria: os concursos deste ano...
Sobre essa do Perestrello, nem sabia, mas acho normal vindo de quem vem.

imank disse...

Caro Aristides:
Já reparou como a "bandidagem" como, muito bem, os designa, "vende" à "opinião pública" o degredo de muitos milhares de professores, como é o seu caso, por quatro longos anos?!
É a "estabilização" das Escolas.
Então estes vigaristas que tudo têm feito para as instabilizar, vêm agora tecer loas à "estabilidade educativa".
Outra patifaria disfarçada de razoabilidade será a entrega da gestão do pessoal, isto é, das colocações, aos municípios.
Então é que vai ser o grande "regabofe" do nepotismo e do compadrio.
Mais duas ensaiadas mas "congeladas" dada a falta de "condições políticas",isto é,dada a resistência(e são tudo menos "peanuts"):
O fim da ADSE e a precarização dos vínculos com a anulação retroactiva dos "Actos de Nomeação" (imbróglio jurídico onde pode prevalecer a aberração inconstitucional, basta que a "pandilha" esteja toda de acordo, então não viu o que se passou com o "Concurso para Titulares")?
Desta canalha tudo se pode esperar. Mas obviamente que nada de bom!

ARISTIDES DUARTE disse...

Caro Imank:

Concordo consigo. Isto é uma "bandidagem".
Só há uma coisa que eu não sei. A do Concurso de titulares. Não concorri, não estou interessado e não liguei nadinha de nada a isso. Eu acho que nem posso concorrer, mas nem sei , nem nunca perguntei. Sou professor do 1.º Ciclo e detesto que me chamem professor titular de turma (alguns abreviam só para titular). Epá, mas os titulares não são os generais, como dizia o outro ("Nem todos podem ser generais!!")?
Acredite que só há pouco tempo (eu não ligo nada à "bola") descobri que havia jogadores titulares e suplentes. Desconhecia o nome titulares. Como nós no 1.º Ciclo temos apenas uma turma atribuída ,agora chamam-me titular.
Se fossem mas era pentear macacos...
Eu sou um simples professor, qual titular, qual carapuça.